Mudei de casa. A mim, ainda estou a desembalar.
QUO—001 · 7 min
Sobre ter morada nova, mobília às flores, um emprego que ainda não comecei e uma crise de identidade a decorrer em fundo, tipo aplicação aberta no telemóvel que nunca se fecha.
Há uma caixa de mudanças na sala da Costa de Caparica que ainda não abri. Não é preguiça, garanto, embora também seja um bocado preguiça. É que a casa já é oficialmente minha (está lá escrito no cartão de cidadão, é lei, é Estado, é carimbo), mobília incluída, porque veio tudo no pacote quando comprei a casa. E sou grata por isso, sinceramente, porque me deu tempo, o tempo que eu não tinha para escolher fosse o que fosse, de me instalar sem ter de decidir mais nada. Só que é mesmo tudo às flores. O sofá é às flores. Não sou eu a exagerar por efeito cómico, é mesmo às flores, grandes, tipo terceira idade em catálogo dos anos 90, e não é feio no sentido de estar estragado, é só profundamente contra o meu gosto, o que é uma forma educada de dizer que todos os dias me sento nele e penso “quem eras tu e porque escolheste isto”. Sentei me nesse sofá, ao lado da caixa que ainda não abri com as minhas próprias coisas, com um café na mão, a olhar pela janela para um mar que tecnicamente já é meu vizinho mas que ainda trato por você. E pensei: ok, é aqui que este site tem de começar.
As moradas que não coincidem
Nos últimos meses decidi mudar tudo ao mesmo tempo, porque sou eu e a moderação nunca foi o meu forte. Vou sair de um emprego onde passei por quatro chefias diferentes em dois anos (o que já dava um artigo só por si, tipo telenovela mas com relatórios de KPI) e vou começar noutro, numa empresa nova, onde ainda nem sei onde fica a casa de banho. Mudei a morada para a Costa de Caparica, o que parece um detalhe burocrático mas não é, porque agora tenho duas vidas em sobreposição: a que estou a fechar e a que ainda não abri, tipo a tal caixa.
E por baixo destas mudanças todas, as óbvias, as que dá para pôr num formulário, há uma que ninguém pede para preencher em lado nenhum: ando a mudar de forma de ver o mundo. Devagar, sem avisar, tipo aquelas atualizações de telemóvel que instalam sozinhas de noite e no dia seguinte já nada está onde estava.
Tenho 32 anos e, pela primeira vez, sinto claramente que me estou a tornar outra pessoa. O que seria dramático se eu não estivesse a viver isso sentada num sofá às flores que não é do meu gosto mas que agradeço estar lá, porque me poupou uma decisão que não tinha cabeça para tomar, e uma estante a condizer que, sinceramente, também não escolheria, só nunca tive coragem de o dizer em voz alta até agora, publicamente, num blog, sem soar ingrata por uma coisa que, no fundo, me ajudou bastante.
A parte de mim que ficou nalgum lado do caminho
Acho que ninguém avisa que crescer não é uma linha reta a somar experiência. É mais tipo arrumar uma casa: tiras uma caixa, ganhas espaço, mas também percebes que já não sabes onde meter metade das coisas que lá estavam. Sou formada em antropologia, o que quer dizer que passei anos a treinar o olhar para observar padrões nos outros, e só agora estou a perceber que o objeto de estudo mais complicado sempre fui eu, só que sem caderno de campo e sem bolsa de investigação, infelizmente. Há uma versão de mim mais antiga, mais apressada a decidir tudo, mais convencida de certas coisas, que foi ficando para trás nalgum sítio entre a morada antiga e esta. Não sei bem onde. Talvez esteja dentro daquela caixa que ainda não abri, mesmo lá no fundo, escondida atrás das coisas que dizia que precisava mas que se calhar já não preciso. Vou verificar quando tiver coragem.
O que nunca muda, aconteça o que acontecer
Mas há coisas que sobrevivem a todas as versões de mim, tipo baratas depois de uma explosão nuclear, só que bonitas. O café da manhã é uma delas. Não é o café em si (embora também seja um bocado o café em si), é aquele intervalo sagrado de dez minutos em que nada me pode tocar, nem o telemóvel, nem a lista de tarefas, nem a ansiedade do dia que aí vem a bater à porta como um vizinho chato.
A outra coisa que nunca muda é esta curiosidade quase doentia por histórias, culturas e pelo outro. Estudei antropologia porque queria perceber como é que as outras pessoas veem o mundo, e continuo a fazer exatamente isso todos os dias, só que agora sem metodologia científica, apenas com uma conversa de café, uma série coreana às tantas da noite ou um livro que alguém me recomendou e eu devorei em dois dias fingindo que tinha uma vida social normal entretanto.
Porque é que isto se chama Index
E é aqui que entra este site. Porque para além de estar a viver esta trapalhada toda de mudanças (casa, emprego a caminho, e aparentemente também de personalidade), também gosto imenso de guardar as coisas boas que vou encontrando pelo caminho e mostrá las a quem se calhar também vai gostar. Um café que merece que se volte lá. Um livro que me estragou uma semana inteira porque não conseguia parar de pensar nele. Um sítio novo na Costa que ainda estou a descobrir, agora que oficialmente moro aqui mas emocionalmente ainda estou de visita.
The Slow Index nasce disto. Da vontade de indexar, literalmente catalogar, as coisas boas que encontro enquanto sou, ao mesmo tempo, várias versões de mim mal coordenadas. A que já mora na Costa, agradecida por um sofá às flores que lhe poupou uma decisão, mesmo não sendo nada do seu gosto. A que está entre empregos e cheia de nervos bons. A que perde bocados de si pelo caminho e vai substituindo por outros que, com sorte, servem melhor.
Não sei que forma vai ter esta versão de mim daqui a uns anos, nem quando é que finalmente vou abrir aquela caixa. Mas sei que quero ir documentando o percurso devagar, com café ao lado, em vez de à pressa como a vida moderna insiste tanto em nos obrigar.
Para ir mais fundo:
- (Moradas) em breve, o primeiro café da Costa de Caparica que já entrou na rotina, apesar da mobília ainda não ter entrado no coração.
- (Descobertas) o livro que li durante a mudança e que, sem querer, falava exatamente disto.
The Slow Index. Uma revista para viver um dia um pouco melhor, mesmo com caixas por abrir.
Se isto te disse alguma coisa, subscreve a newsletter. Uma nota, uma vez por semana. Nada mais, prometo.