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Testei todas as gelatarias da Rua dos Pescadores. Ganhou uma, por causa do cricket.
Moradas

Testei todas as gelatarias da Rua dos Pescadores. Ganhou uma, por causa do cricket.

Jania Julho 21, 2026 4 min read

MOR—001 · 6 min

Sobre como escolhi a minha gelataria oficial na Costa de Caparica com o rigor científico de quem nunca soube fazer nada a meio, e sobre um senhor que gosta de cricket tanto quanto eu.

Quando cheguei à Costa de Caparica, ainda sem saber onde ficava fosse o que fosse, decidi que a forma mais eficiente de conhecer o meu bairro novo era através da Rua dos Pescadores, que tem gelatarias a cada dois prédios, como se a rua tivesse sido planeada por alguém com a mesma relação obsessiva que eu tenho com sobremesas. Não fui só a uma. Fui a todas. Uma por uma, ao longo de umas semanas, com a seriedade de quem está a fazer trabalho de campo a sério e não só a arranjar desculpa para comer gelado praticamente todos os dias.

O método, se é que lhe posso chamar assim

Sou formada em antropologia, o que quer dizer que tenho tendência para transformar qualquer decisão banal num estudo comparativo com critérios e tudo. Neste caso, os critérios eram simples: textura, sabor a sério (nada de artificial a gritar mais alto que o ingrediente), e se o sítio tinha alma ou se era só mais um balcão de inox a vender a mesma coisa. Fui rua abaixo, rua acima, e a certa altura já reconhecia as caras do pessoal de cada loja, o que também diz muito sobre o ritmo a que isto estava a acontecer.

No fim deste levantamento absolutamente não solicitado por ninguém, a Gelataria Pope ganhou. Não por pouco, por muito. O gelado lá é, sem exagero nenhum da minha parte desta vez, o melhor da rua toda.

Chocolate, sempre, apesar de tudo

Tenho uma regra pessoal em gelatarias novas: experimento sempre um sabor que nunca provei, porque a vida é curta e a lista de combinações possíveis é comprida. Mas há uma constante que atravessa todas as visitas, chova ou faça sol, esteja a testar pistácio com flor de sal ou frutos vermelhos com qualquer coisa exótica: o chocolate continua a ser o meu preferido. Sempre foi. Já aceitei que provavelmente sempre vai ser, e parei de tentar fingir sofisticação à volta disso.

O senhor do cricket

Mas o motivo pelo qual a Pope passou de “a melhor gelataria da rua” a “a minha gelataria” tem menos a ver com o gelado e mais com uma conversa completamente inesperada. Trabalha lá um senhor simpático que, numa das minhas primeiras visitas, mencionou de passagem que gosta de cricket. Eu sigo cricket. Não jogo, nunca joguei, mas vejo, sigo resultados, tenho equipas de que gosto mais do que de outras, o que já por si é um desporto pouco comum de se seguir em Portugal, e ainda por cima às vezes complicado de arranjar alguém com quem falar sobre isso sem receber uma cara de confusão total.

Encontrar isto ao balcão de uma gelataria na Costa de Caparica não foi só sorte, foi uma daquelas coincidências pequenas que fazem um sítio novo parecer menos estranho. De repente já não era só “a gelataria boa da esquina”, era o sítio onde alguém sabe do que estou a falar quando digo que a última partida foi renhida.

Porque isto é uma morada, e não só uma recomendação

É por isto que a Pope entra aqui, na secção Moradas, e não só numa lista qualquer de “sítios para experimentar”. Uma morada, para mim, não é um lugar bonito só porque sim, é um lugar que começou a fazer parte da forma como me situo no espaço novo onde vivo. Foi a minha primeira referência quando cheguei aqui, o primeiro sítio que consegui indicar a alguém sem ter de abrir o Google Maps. E ficou, porque o gelado é mesmo bom, mas também porque encontrei ali uma conversa que não estava à espera de encontrar.

Se passares pela Rua dos Pescadores, vale a pena fazeres o mesmo crawl que eu fiz. Mas se só tiveres tempo para uma paragem, sabes já qual escolher.


Para ir mais fundo

  • (Quotidiano) o artigo sobre a mudança para a Costa, onde esta gelataria é mencionada pela primeira vez.
  • (Descobertas) em breve, o livro que li durante a mudança.

The Slow Index. Uma revista para viver um dia um pouco melhor, mesmo com caixas por abrir.

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