O livro que li no meio das caixas e que sabia mais sobre mim do que eu própria.
DES—001 · 6 min
Sobre “Os Meus Dias na Livraria Morisaki”, uma rapariga japonesa a refazer a vida numa livraria de família, e eu a fingir que estava só a ler, não a processar uma mudança inteira.
Comprei este livro sem grande plano, tipo quem pega numa coisa pequena na fila da caixa para se distrair. Cento e tal páginas, capa bonita, promessa de conforto. O que eu não esperava era lê-lo precisamente nas semanas em que a minha própria vida também estava em caixas, literalmente, e acabar a ler sobre uma personagem a atravessar mais ou menos o mesmo que eu, só que em Tóquio e com muito mais classe do que eu alguma vez vou ter.
Takako e a arte de desabar em público
A história é simples de contar e difícil de não sentir familiar. Takako tem vinte e cinco anos, uma vida relativamente arrumada, até que o namorado lhe conta que vai casar com outra pessoa, o que já é mau, mas fica pior quando se percebe que ele andava a viver as duas vidas ao mesmo tempo. Takako desaba. Sai do emprego. Entra numa espécie de paragem total que o livro não tem pressa nenhuma de dramatizar, só mostra, com uma calma quase desconcertante.
É nesse momento que um tio que ela mal conhece, Satoru, a convida a ir viver por uns tempos para cima da livraria da família, em Jimbocho, o bairro de Tóquio inteiramente feito de livrarias. Takako não é grande leitora quando lá chega. Não vai à procura de livros, vai à procura de um sítio onde parar. Os livros é que a vão encontrando a ela, devagar, sem alarido, ao longo dos dias.
A livraria como quem tem uma casa cheia de mobília de outra pessoa
Percebi porque é que este livro me apanhou logo nas primeiras páginas. Takako também vai parar a um sítio que não escolheu com cuidado nenhum, um espaço que já existia antes dela, cheio da história de outras pessoas (a livraria está na família há três gerações), e é aí, no meio de coisas que não são suas, que ela começa devagar a tornar-se outra vez alguém. Não fugiu para longe para “encontrar-se” num sentido grandioso de retiro espiritual, foi só para cima da loja do tio, um sítio prático, quase por acaso.
Isso pareceu-me familiar de uma forma que não vou fingir que é coincidência. Também fui parar a uma casa que já vinha com uma vida anterior dentro dela, mobília incluída, e também estou, devagarinho, a aprender a viver lá dentro sem pressa de mudar tudo de uma vez. A diferença é que Takako tinha uma livraria inteira à disposição para se distrair. Eu tenho um sofá às flores e uma caixa por abrir.
O que ela achou nos livros, eu ando a achar em pequenos rituais
O livro é, no fundo, sobre como nos recompomos através de coisas pequenas repetidas: um café ao fundo da rua onde Takako também passa a ir, conversas com as pessoas do bairro, o hábito de abrir um livro sem grande expectativa e deixá-lo surpreender. Nada disto é dramático. É precisamente essa falta de drama que faz o livro funcionar, e que me fez pensar na minha própria versão disto: o café da manhã que já mencionei aqui, a gelataria que virou ponto de referência sem eu planear, as conversas pequenas que vão costurando um sítio novo até ele deixar de ser estranho.
Não sei se cheguei a chorar a ler isto, mas se calhar não é da tua conta de qualquer forma. Digamos só que desembalar uma caixa de livros na mesma semana em que lia sobre alguém a reconstruir a vida à volta de livros teve um nível de ironia que nem eu, com o meu à vontade para ler sinais em tudo, tinha planeado.
Porque isto é uma descoberta, e não só uma recomendação de leitura
Entra aqui em Descobertas porque não é só “li isto e gostei”. É mais o tipo de encontro que só acontece porque o timing calhou certo, um livro a aparecer exatamente na altura em que eu precisava de ver, escrito por outra pessoa, que recomeçar não tem de ser dramático para ser real. Às vezes é só uma livraria por cima da loja de um tio. Às vezes é uma casa na Costa de Caparica com um sofá que não escolheste. O importante, parece-me, é deixar que as coisas pequenas façam o trabalho devagar.
Se estiveres também no meio de uma mudança, seja qual for, vale a pena teres isto por perto. Não resolve nada sozinho, mas faz companhia à espera que resolva.
Para ir mais fundo:
- (Quotidiano) o artigo sobre a mudança para a Costa, onde tudo isto começou.
- (Moradas) a gelataria que virou a minha primeira referência no bairro novo.
The Slow Index. Uma revista para viver um dia um pouco melhor, mesmo com caixas por abrir.
Se isto te disse alguma coisa, subscreve a newsletter. Uma nota, uma vez por semana. Nada mais, prometo.